As ambulâncias
Martha Medeiros
Em qualquer ponto da cidade, de onde quer que se esteja, impossível deixar de escutar, há sempre uma sirene gritando, misturando-se ao som ambiente.
Era uma moça simples, ainda entusiasmada com tudo o que via, e chegou de viagem como quem tinha chegado da lua, fazia tempo que eu não testemunhava tamanha euforia. Então, gostou de Nova York? Muito moderno, ela disse, muito moderno. Logo imaginei aquela menina encantada com as calçadas largas, com os prédios longos, com tudo o que havia por lá de vidro e concreto, e talvez o barulho. O barulho, ela confirmou, o barulho. Ruídos dos automóveis? Não, ela respondeu. Das ambulâncias! O olhar de puro brilho era de quem tinha dito carruagens, mas ela havia dito ambulâncias. Em qualquer ponto da cidade, de onde quer que se esteja, impossível deixar de escutar, há sempre uma sirene gritando, misturando-se ao som ambiente. Uma sirene, duas sirenes, são tantas, vindas de tão longe, aproximando-se, sendo escutada sem ser vistas, muito moderno, muito.
Onde a moça vive não tem avenida, é cidade menor, ensurdecedor é o canto dos pássaros, o ruído dos cascos no paralelepípedo, algum rádio ligado na casa vizinha. O posto de saúde é logo ali na esquina, todo mundo entra e saí sem alarde, os doentes chegam a pé, parece até que as doenças graves sabem que não devem acontecer naquele canto do mundo, porque com gravidade a cidade não lida, é pouco médico, pouco remédio, e quando o troço é sério de nada adiantam os chás e as rezas.
Então as sirenes, pra ela, passaram por música, sinônimo de urbanidade, lá vai um cardíaco pra mesa de operação, lá vai um garoto que bebeu na direção, lá vai uma fratura exposta, uma facada nas costas, uma falta de ar ou um motorista de folga a se exibir pra namorada, olha só como eu abro passagem. Lá vão elas, as ambulâncias, com suas luzes piscantes e seus nomes escritos de trás pra frente, recolher corpos caídos do décimo sétimo andar, oferecer oxigênio para quem enfrentou um escapamento de gás, prestar primeiros socorros pra quem não teve a quem chamar. Voam na contramão, estacionam em qualquer lugar, atravessam os portões abertos dos hospitais, preenchendo as ruas com suas sirenes ligadas, avisando que se está em busca de gente pra ajudar, porque só na cidade grande há tanto motivo pra estressar, pra enfartar, pra brigar, pra estourar, pra chegar assim tão rente ao inferno.
Muito moderno, muito.
Domingo, 12 de setembro de 2004.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.